Domingo de trabalho sem samba

Os últimos quatro meses representaram o início de uma aventura maior em outro país. Agora, pouco mais de 120 dias após o avião aterrissar em Tel Aviv, acredito que já foi possível conceber ideias básicas acerca de como a sociedade funciona por aqui. Em linhas gerais, acho o modus operandi da cidade incrível. Voltar para casa às 2h30 da manhã, sozinho e a pé (potencialmente bêbado)? Claro, por que não? Nada vai acontecer. Fazer exercícios em praça pública e deixar o celular sem supervisão por alguns minutos, enquanto completa a série? Problema nenhum. Conhecer gente do mundo inteiro? Isso é absolutamente fantástico!

Ontem fui a um bar e fiquei amigo do gerente, metade tailandês, metade filipino. Noru o nome dele. Sentou à nossa mesa, distribuiu shots de graça, filosofamos e ele me contou um pouco a experiência de ser filho de refugiados. Compartilhou como, apesar de nascido em Israel, enfrenta certas dificuldades num âmbito federal por não ser judeu.

Isso escancara para mim a existência de uma redoma cultural, social e política que “protege” Tel Aviv do resto desse país. A pluralidade e aceitação ao próximo por aqui beiram a utopia: um sentimento absolutamente inclusivo e compartilhado. Há diálogo e vontade legítima em defender os direitos do próximo. Acho que as celebrações a respeito do Pride Day ilustram bem isso — toda uma cidade unida pelo direito de amar e ser amado, por quem você quiser. O buraco é mais embaixo quando a gente pensa no país que, para começo de conversa, não conta com um Estado laico. A lei é bíblica e sempre haverá dissonâncias se os dogmas perpetrados têm mais de cinco mil anos de idade. Simplesmente por não fazerem mais sentido.

É um país de extremos, dicotômico, paradoxal.

Ah, e ainda trabalham aos domingos. O fim de semana aqui começa na sexta e termina no sábado. Essa é uma realidade a qual não consigo me adaptar. Veja bem, não é novidade para mim trabalhar domingo. Enquanto jornalista formado, tive minha cota de plantões nos dias em que as pessoas normais estavam na praia. Além disso, cresci em uma casa na qual não faltaram exemplos sobre labuta dominical.

Jornalistas…

Ainda bem que eu entendi que isso não é vida cedo o suficiente.

Domingo para mim é sagrado.

Não por religião, claro. Quer dizer, talvez seja, se você considerar que sou beato devoto do samba e do descompromisso.

Domingo pra mim era dia de acordar sem despertador, tomar um café gostoso com sol no rosto, encontrar com amigos para um almoço despretensioso, ir numa roda de bamba para cantar a plenos pulmões e encerrar tudo com a saideira: do programa e do fim de semana.

Não sei.

Trabalhar domingo não faz sentido. Nem mesmo aqui.

Meu trabalho é conversar com pessoas do mundo inteiro, mas veja só, o mundo inteiro não está disposto a conversar de trabalho no domingo. É um dia perdido, cumprindo tabela, esperando a segunda, mas sem feijoada na panela. Sem Clara Nunes, Beth Carvalho, Dona Ivone, Cartola, Adoniran, Zeca, João Nogueira, ou Paulinho da Viola, sem o encanto da Portela.

Em Israel, o Galo nunca cantou no Cantagalo. Menino nunca pegou manga na Mangueira. Domingo aqui nunca foi dia de samba, não compreendem a alma boêmia.

Dei um aperto de saudade no meu tamborim.

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Sou um cara que enxerga graça em situações cotidianas, que rio de mim mesmo com frequência, e que tento fazer os outros rirem (talvez sem o mesmo sucesso).

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